Ressaca
Deixaste-me assim, a seco. Sem uma gota de ti nos lábios, sem o calor da tua presença a queimar-me o peito como um trago demorado. Como um vício que eu bebia sem medo de tombar. E agora, resta-me a ressaca de quem ama demais. A boca seca do silêncio, as mãos inquietas à procura de um corpo que não está. Tentei ficar sóbria. Juro. Tentei ocupar as horas, beber água… Mas a tua ausência é um bar fechado numa noite fria — e eu, cambaleante, encosto-me à porta como quem ainda espera por mais um trago. Porque amar-te é embriaguez. Mas ter-te longe é delírio. É abstinência sem cura. É querer voltar a beber de ti mesmo sabendo que vou perder a consciência. E ainda assim, aqui estou. Sede infinita. A pedir-te, sem voz: só mais um gole.

